terça-feira, 31 de março de 2026

Brilha, brilha, estrelinha

Eu venho escrevendo esse texto há meses, porque é algo que eu não consigo suportar finalizar. Parece que vai acabar. E eu não quero que nunca acabe. Mas a gente precisa saber a hora de dizer adeus. 

Lembro perfeitamente do dia que te peguei na casa de uma amiga, que também se chama Fernanda. Ela me disse "amiga, tenho certeza que é um cachorrO daquela raça do Beethoven". Automaticamente eu pensei: é agora (meu sonho na época era ter um cachorro dessa raça por causa do tamanho). Incomodei meus pais insuportavelmente até que eles dessem o aval. Fazia muito tempo que nós não tínhamos mais cachorro.Pois bem, fomos buscar o Beethoven. Pequeno, peludo. Um fofo de cachorrO - mas "não era pra dormir dentro de casa" - dizia a mãe. O pai deu vermífugo, mas errou a dose. O cachorrO passou mal a noite inteira, trêmulo. Estava chovendo bastante. A Gabi acordou, a mãe acordou, eu acordei. A Gabi pegou elE e disse: elE vai dormir comigo. A mãe não recusou, ficou com pena delE. Mais tarde, em outro momento, levamos o cachorro ao veterinário. Era para ser uma consulta de rotina, até que o veterinário fez a pergunta que não quer calar: "qual é o nome da cadelinha?". Eu não estava junto, mas conhecendo a mãe e a Gabi, deve ter rolado aquele olhar estranho, curioso. Não bastasse isso, chegou o momento de preencher a caderneta de vacinação. Na hora de colocar a raça, o veterinário não hesitou: SRD. Agora imaginem levar esses dois baques em um único dia: é uma cadela e não tem a raça do Beethoven. A risada cirrótica da mãe, como se fosse um fusca tentando pegar, ecoa até hoje naquele consultório. Enfim. Assim te descobrimos, filha. Em uma singela homenagem ao filósofo da casa viciado no livro "O mundo de Sofia", te nomeamos desta forma (mas com ph, porque era mais chique - pelo menos isso).

Você trouxa tantas alegrias para essa casa, Sophia, que não faz ideia do quanto a nossa família foi feliz ao teu lado. Tua educação e jeito carinhoso de ser foram o que mais nos chamou a atenção. Não podemos dizer "a Sophia aprontava". O máximo que tu fazia era pegar as batatas e cebolas da fruteira e mordê-las quando a gente saía de casa e te deixava muito tempo só - mas isso é bem coisinha de cachorrinho. Chegávamos e elas estavam cheias de marcas de dentinhos. E tu ali, rindo pra gente - literalmente. A minha primeira vez vendo uma cadela sorrir foi contigo. E eu lembro até hoje da reação minha, da mãe, do pai, do Lipe, quando abrimos a porta de casa e tu mostraste os dentinhos. Era a coisa mais fofa do mundo. A gente começou a rir também. 

Não posso esquecer que para além da cachorra da família, nos deu o privilégio de sermos avós (em duas ninhadas!!!!). Lembrando que a primeira ninhada você ganhou nos meus pés. Acordei de manhã com choro de bebê e fiquei com medo de ver. Fui acordar o pai e ele veio correndo (parecia que os filhos eram dele). A gente abriu as cobertas e estava lá, a ninhada da Neni. Não lembro quantos eram. Lembro que a mãe olhou pra Neni e disse que ficaríamos com ela porque ela é a mais dramática e sensível - achamos que ela precisaria dos nossos cuidados. Além dela, veio a Gorda, a Neguinha, a Maria - mas essas você ganhou num domingo à noite, assistindo Faustão, no sofá da sala, enquanto nós jantávamos o churrasco de meio dia. Nós desconstruímos tudo, absolutamente tudo que muita gente ainda é conservadora em termos de convivência humana com animais. Você é da nossa família, SIM. Você dormia com a gente, SIM. Você sentava na cadeira e ficava aguardando uma comidinha especial de humanos, SIM (só aguardando mesmo rs). Foram tantas nuances nesses 17 anos de história que daria para escrever um livro (será o novo Sophia e eu?). Em todas essas histórias aprendemos alguma coisa nova contigo e nos colocamos à prova de que o amor não tem raça, não tem porte, ele apenas existe. E é muito fácil te amar e eu escolheria viver tudo novamente, exatamente da forma que foi.

Obrigada por brilhar nas nossas vidas. Você sempre será celebrada.

Te amo mais que tudo!




















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